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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Brasília desacelera: Congresso se aproxima do recesso com PEC 6×1, Lei da Misoginia e MP do Frete “na gaveta”

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Com as malas quase prontas para as férias legislativas que começam neste sábado (18), parlamentares deixam em compasso de espera propostas que impactam diretamente a rotina do trabalhador, a segurança das mulheres e o bolso dos caminhoneiros.

O relógio corre no Congresso Nacional, mas o ritmo das votações parece ter entrado em compasso de espera. Com o recesso parlamentar batendo à porta neste sábado (18), a sensação nos corredores de Brasília é de que grandes decisões sociais e econômicas ficarão congeladas até o segundo semestre.

Propostas de forte apelo popular e debates intensos — como o fim da escala de trabalho 6×1 e a criminalização da misoginia — correm o sério risco de passar as próximas semanas acumulando poeira nas gavetas das presidências da Câmara e do Senado.

Abaixo, explicamos o que está travado e o que ainda corre contra o tempo antes que as luzes do plenário se apaguem.

1. O “freio de mão” na PEC 6×1

A proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da exaustiva jornada de trabalho 6×1 (reduzindo a carga semanal de 44 para 40 horas) foi aprovada na Câmara dos Deputados em maio com ampla maioria. No entanto, o texto encontrou uma barreira burocrática no Senado.

A proposta segue paralisada na mesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que ainda não a encaminhou para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Como a comissão não tem mais reuniões previstas para esta semana, o sonho de uma jornada de trabalho mais equilibrada terá que esperar, no mínimo, o retorno dos parlamentares em agosto.

2. PL da Misoginia: A busca por um consenso difícil

Outro tema que mexe com as estruturas sociais do país é o PL 896 de 2023, que equipara a misoginia (o ódio e a discriminação contra mulheres) ao crime de racismo.

Embora o regime de urgência tenha sido aprovado com folga no início do mês e o Senado já tenha dado sinal verde por unanimidade em março, a votação final na Câmara segue incerta. Havia a expectativa de que o projeto entrasse em pauta nesta quarta-feira (15), mas ele ficou de fora da previsão oficial de votações.

“Nós vamos, ao lado das lideranças, com muita cautela, com muito respeito, construir o melhor texto possível.” — Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, sinalizando a necessidade de diálogo diante da divisão do plenário.

Os dois lados da moeda no plenário:

  • Pelo avanço: A relatora, deputada Tabata Amaral (PSB-SP), tenta articular pontes de última hora para incluir o texto na pauta de surpresa.

  • Pelo adiamento: Partidos como o PL, Novo e Missão votaram contra a urgência. A deputada Júlia Zanatta (PL-SC) argumenta que o tema “não está maduro” e que ainda restam muitas divergências para uma votação apressada.

3. MP do Frete: O prazo final é quinta-feira

Se a PEC 6×1 e o PL da Misoginia podem esperar o segundo semestre, a Medida Provisória 1.343 não tem esse luxo: ela perde a validade nesta quinta-feira (16).

Editada pelo governo federal para apertar a fiscalização e punir empresas que pagam aos caminhoneiros valores abaixo do piso mínimo de frete (com multas de até R$ 1 milhão), a MP foi desfigurada na Câmara pelo relator Zé Trovão (PL-SC). Ele incluiu no texto:

  • A anistia para caminhoneiros que bloquearam rodovias em protestos em 2022.

  • O perdão de multas para quem descumpriu o pagamento do frete mínimo desde 2018.

Mesmo com a corda no pescoço, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não incluiu a MP na pauta de votações da Casa, o que pode fazer a medida “caducar” e perder o efeito por completo.

O que ainda pode ser votado esta semana?

Apesar do ritmo de fim de festa, a Câmara e o Senado ainda têm uma lista de votações prioritárias antes de fecharem as portas.

Na Câmara dos Deputados:

A pauta prevê a análise de 19 projetos, incluindo:

  • Tecnologia e Segurança: O PL 1.828/2023, que autoriza a instalação de câmeras de reconhecimento facial em estações rodoviárias, ferroviárias, vagões de transporte e repartições públicas.

  • Causa Animal: O projeto que pune com a cassação da CNH quem for flagrado abandonando animais em vias públicas.

  • Créditos Extraordinários: Medidas Provisórias que liberam recursos urgentes para pastas sensíveis, como Meio Ambiente e Desenvolvimento Agrário.

No Senado Federal:

Os senadores devem focar em socorros financeiros e subsídios econômicos:

  • Combustíveis: A MP 1.344/2026, que destina R$ 10 bilhões para subsidiar o preço do diesel, uma resposta direta às instabilidades causadas pela guerra no Oriente Médio.

  • Clima e Emergência: A MP 1.342/2026, que libera R$ 1,3 bilhão para apoiar os municípios de Minas Gerais castigados pelas fortes chuvas recentes.

O olhar do cidadão comum

Enquanto as lideranças partidárias calculam seus apoios e calibram seus discursos para o recesso, o cidadão assiste a temas de alto impacto social entrarem em banho-maria. O esvaziamento das pautas nesta última semana mostra que, no xadrez político de Brasília, o tempo do relógio oficial quase nunca coincide com a urgência das ruas.